📖 O Dia em que Enterrei Meu Casamento
Confissões na Madrugada
A foto de Téo amarrado queimava na mente de Isabel enquanto o carro avançava pelas ruas escuras da periferia. Ela apertava o celular contra o peito, como se pudesse proteger o menino à distância. Felipe dirigia em silêncio, os nós dos dedos brancos no volante. Ao lado dele, Isabel sentia o próprio corpo vibrar de exaustão e medo.
Quando finalmente pararam diante do prédio dela, ela nem esperou que ele abrisse a porta. Subiram juntos, e o apartamento os recebeu com um silêncio pesado. Isabel se deixou cair no sofá, e Felipe sentou ao seu lado, próximo o bastante para que ela sentisse o calor dele. Ela encostou a cabeça no ombro dele, fechando os olhos.
"Eu não consigo parar de pensar nele", sussurrou. Felipe passou o braço ao redor dela, puxando-a para mais perto. "Eu sei. Mas você não está sozinha." Felipe suspirou, e Isabel sentiu a tensão nos ombros dele.
"Preciso te contar uma coisa", ele disse, a voz rouca. Ela se afastou um pouco para encará-lo. "O que foi?" Ele desviou o olhar, fixando-se nas próprias mãos. "Eu me sinto culpado.
Muito culpado. Eu te envolvi nisso por causa da minha rixa com os Almeida. Eu queria derrubá-los, e usei você como peça no meu jogo." Isabel franziu a testa, sentindo um frio na barriga. "O que você quer dizer?" Felipe finalmente a encarou, os olhos verdes cheios de angústia.
"Eu sabia que Ricardo era um canalha. Eu queria vê-lo pagar. Quando você apareceu no meu escritório, vi uma oportunidade. Mas agora..." Ele engoliu em seco.
"Agora Téo está em perigo, e é por minha causa. Se eu não tivesse insistido, você talvez estivesse segura." Isabel sentiu uma onda de raiva, mas não era contra ele. Era contra a situação. "Você não tem culpa", ela disse, firme.
"Ricardo é o culpado. Ele sempre foi. Eu é que fui cega." Ela segurou a mão dele, entrelaçando os dedos. "E eu não vou recuar.
Não posso. Téo precisa de mim." Felipe a olhou, surpreso. "Você não está com medo?" "Estou apavorada", ela admitiu. "Mas medo não vai salvar Téo.
Só a ação vai." Ela sentiu a determinação crescer dentro de si. "E eu preciso de você ao meu lado. Se você quiser ir embora, eu entendo. Mas se ficar, vamos lutar juntos." Felipe apertou a mão dela.
"Eu fico. Prometo." O silêncio que se seguiu não era desconfortável, mas cheio de significado. Isabel sentiu que algo havia mudado entre eles. Não era apenas atração ou parceria profissional; era uma confiança profunda, construída na vulnerabilidade.
Ela encostou a cabeça no ombro dele novamente, e ele a envolveu em um abraço protetor. "Obrigada", ela murmurou. "Por acreditar em mim." Ele beijou o topo da cabeça dela. "Você é a mulher mais forte que eu já conheci, Isabel.
Eu admiro você." Ela sorriu, sentindo as lágrimas ameaçarem. "Eu passei anos me sentindo invisível. Com você, eu me sinto... vista." Ele a afastou um pouco, olhando nos olhos dela.
"Você é incrível. E eu vou fazer de tudo para proteger você e Téo." Naquele momento, Isabel percebeu que não estava mais sozinha. Ela tinha um aliado, um amigo, talvez algo mais. E isso lhe deu forças para continuar.
Ela se aninhou nele, sentindo o cansaço finalmente cobrar seu preço. "Fica comigo até eu dormir?" pediu, a voz embargada. "Claro", ele respondeu, acariciando seus cabelos. Ela fechou os olhos, permitindo-se um momento de paz em meio ao caos.
O silêncio da madrugada foi quebrado pelo toque agudo do celular de Isabel. Ela sobressaltou, o coração disparando. Felipe a soltou, alerta. Ela pegou o aparelho, o número desconhecido brilhando na tela.
O telefone de Isabel toca: é uma ligação anônima com a voz de Téo latindo ao fundo, seguida de um desligamento abrupto.






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