📖 O Dia em que Enterrei Meu Casamento
Lágrimas no Espelho
A noite se arrastou como um rio de lágrimas secas. Isabel ficou imóvel diante do espelho, as mãos apoiadas na pia de mármore, o reflexo devolvendo uma mulher que ela não reconhecia. Os olhos, antes cheios de esperança, agora queimavam com uma raiva fria. Ela lembrou de cada palavra de Ricardo, de cada gesto de desprezo, e a dor foi se transformando em algo mais sólido: determinação.
Ela não seria mais a esposa boba que assinava tudo sem ler. Pegou o celular dele, ainda na mão, e olhou para as mensagens com Bárbara. Cada foto, cada declaração, era uma facada. Mas também era uma prova.
Ela precisava de um advogado. Um bom. Alguém que entendesse de divórcio e de homens como Ricardo. Lembrou-se de um nome que vira em uma revista: Dr.
Felipe Costa, especialista em casos de alto valor. Sem pensar duas vezes, pegou o próprio celular e procurou o número do escritório. A ligação tocou, e ela pediu para falar com o doutor, explicando que precisava de uma consulta urgente. A secretária marcou para a manhã seguinte, às nove horas.
Isabel desligou e sentiu um frio na barriga. Ela estava fazendo algo concreto, algo que Ricardo jamais esperaria. Mas também sabia que ele não ficaria parado. Na manhã seguinte, Isabel acordou com o celular vibrando.
Era Ricardo, que já estava na sala, tomando café como se nada tivesse acontecido. Ela se vestiu com calma, escolhendo um conjunto de alfaiataria que há tempos não usava, e colocou o celular de Ricardo na bolsa, junto com o seu. Quando entrou na sala, ele a olhou de cima a baixo com desprezo. 'Aonde você pensa que vai?', perguntou, a voz fria.
'Preciso resolver umas coisas', respondeu ela, tentando manter a voz firme. 'Não tente me processar, Isabel. Você não tem nada. Os bens estão no nome da empresa, e eu tenho os melhores advogados de São Paulo.
Você vai sair daqui como entrou: com uma mão na frente e outra atrás.' Isabel sentiu o coração disparar, mas não deixou transparecer. 'Eu só vou resolver umas coisas', repetiu, e saiu antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. No corredor, ela respirou fundo, as pernas tremendo. Mas a lembrança das mensagens no celular a impulsionou.
Ela entrou no elevador e, ao chegar ao hall, viu Bárbara entrando no prédio. As duas se encararam por um instante. Bárbara parecia surpresa, mas logo esboçou um sorriso irônico. Isabel sentiu o ódio subir, mas desviou o olhar e seguiu em frente, apertando a bolsa contra o peito.
Ela tinha uma consulta às nove horas, e nada a impediria de chegar lá. No escritório de Felipe Costa, Isabel esperou na recepção, os olhos fixos no chão de mármore. Quando ele apareceu, alto, de terno escuro e olhos verdes, ela sentiu um misto de nervosismo e esperança. Ele a cumprimentou com um aperto de mão firme e a conduziu para a sala.
'Sente-se, dona Isabel. Me conte o que está acontecendo.' Ela respirou fundo e começou a falar, contando sobre as mensagens, sobre a ameaça de Ricardo, sobre os anos de humilhação. Felipe ouviu atentamente, fazendo anotações. Quando ela terminou, ele a olhou com seriedade.
'Você tem provas concretas, e isso é um bom começo. Mas precisamos agir rápido, antes que ele oculte mais bens.' Isabel sentiu um alívio imenso, mas também um medo paralisante. 'Ele disse que eu não tenho chance', sussurrou. Felipe sorriu, um sorriso confiante.
'Ele está enganado. Você tem mais direitos do que imagina. E, pelo que vejo, você tem coragem. Isso já é meio caminho andado.' Isabel sentiu uma onda de determinação.
Ela não estava mais sozinha. Pela primeira vez em anos, ela tinha um aliado. E, ao sair do escritório, a lembrança do olhar de Bárbara no hall a fez apertar o passo. Ela não sabia o que aquilo significava, mas sabia que a guerra estava apenas começando.
Isabel saiu do escritório de Felipe com uma pasta cheia de documentos e uma nova esperança. Mas, ao entrar no elevador do seu prédio, o coração acelerou. Ela sabia que Ricardo não aceitaria aquilo passivamente. E, quando as portas se abriram no hall, ela viu Bárbara saindo do elevador ao lado, com um sorriso debochado.
Ao sair do apartamento, Isabel vê Bárbara entrando no prédio, e as duas trocam um olhar carregado de culpa e ódio.






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