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📖 O Dia em que Enterrei Meu Casamento

O Aniversário Maldito

546 words

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O relógio da sala marcava vinte horas, e Isabel Oliveira ajustou pela última vez o arranjo de flores no centro da mesa. As velas tremeluziam, refletindo na porcelana fina que ela herdara da avó. Ricardo prometera chegar cedo para o jantar de aniversário de dez anos de casamento, mas o trânsito de São Paulo era implacável. Ela alisou o vestido azul-marinho, escolhido a dedo para a ocasião, e sorriu para si mesma no espelho do hall. Dez anos. Uma década de dedicação, de abrir mão da carreira para apoiá-lo, de construir um lar perfeito. Mas algo a inquietava. O celular de Ricardo vibrou sobre o aparador, esquecido. Isabel hesitou, mas a curiosidade falou mais alto. Ao deslizar o dedo na tela, mensagens explícitas de Bárbara, sua melhor amiga, surgiram. O chão pareceu sumir sob seus pés. Isabel leu as mensagens uma, duas vezes, o coração martelando. Bárbara chamava Ricardo de 'meu amor' e combinava encontros no hotel que ele dizia frequentar a negócios. As datas coincidiam com as noites em que ele chegava tarde, com desculpas esfarrapadas. Com as mãos trêmulas, Isabel ouviu a chave na porta. Ricardo entrou, impecável no terno cinza, e parou ao vê-la com o celular na mão. 'O que você está fazendo com o meu telefone?', perguntou, a voz fria. Isabel ergueu o aparelho, as mensagens na tela. 'Isso é verdade?', sussurrou. Ricardo bufou, tirando o paletó. 'Não vou mentir. Estou cansado dessa farsa. Quero o divórcio.' Isabel sentiu o sangue ferver. 'E os nossos dez anos? E tudo o que eu sacrifiquei?' Ele riu, sem humor. 'Sacrifício? Você nunca trabalhou, nunca teve ambição. A empresa está no meu nome, o apartamento também. Você sai como entrou: com as roupas do corpo.' Isabel olhou para ele, atordoada. 'Você não pode fazer isso.' 'Já está feito', respondeu ele, pegando o celular. 'Meu advogado vai entrar em contato. Não tente dificultar, ou você vai se arrepender.' Ele saiu da sala, deixando-a sozinha com o jantar esfriando e a vida em ruínas. Isabel ficou imóvel, ouvindo o carro de Ricardo se afastar. As lágrimas ameaçaram cair, mas uma raiva quente as secou. Ela pensou em todos os anos em que se anulou, em como acreditou que o amor era suficiente. Lembrou-se das palavras da mãe, que sempre dizia que ela era capaz de mais. E, pela primeira vez, viu Ricardo como ele realmente era: um homem que a usara como um degrau. A dor se transformou em determinação. Ela não seria descartada como um objeto. Isabel respirou fundo, lembrando-se das aulas de Direito que abandonara para ser a esposa perfeita. Talvez fosse hora de usar aquele conhecimento. Ela olhou para os documentos na gaveta do escritório, que sempre assinava sem ler. Algo lhe dizia que ali havia respostas. A raiva deu lugar a um plano. Ela não sabia como, mas faria Ricardo pagar por cada humilhação. Isabel trancou-se no banheiro, a respiração ofegante. O espelho refletia uma mulher que ela mal reconhecia: olhos vermelhos, cabelos desfeitos, o vestido azul agora parecendo um disfarce. Ela encostou as mãos na pia e encarou a própria imagem, buscando forças para o que viria. Isabel tranca-se no banheiro e, ao se olhar no espelho, percebe que não se reconhece mais.
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