📖 A Esposa do Chefão do Tráfico
A Defesa da Fazenda
Isabela pressionava o pano contra o ombro de Lucas, o sangue ainda escorrendo entre seus dedos. Ela olhava para o rosto pálido dele, sentindo o coração acelerado. 'Você é um tolo, Lucas. Poderia ter morrido.' Ele tentou sorrir, mas a dor o impediu.
'Eu não podia deixar você enfrentar isso sozinha. Você é mais importante do que qualquer coisa.' Isabela sentiu as lágrimas quentes nos olhos, mas as conteve. Ela não podia fraquejar agora. 'Fica quieto.
Vou cuidar de você.' Enquanto Isabela pressionava o pano no ombro de Lucas, ele a segurou pelo pulso, com uma força surpreendente. Seus olhos estavam fixos nos dela, e ele sussurrou: 'Isabela, eu preciso te contar uma coisa...' Ela prendeu a respiração, esperando. Mas antes que ele pudesse continuar, um grito veio de fora. 'Dona Isabela!
O paiol ainda está pegando fogo!' Isabela hesitou, olhando para Lucas. Ele assentiu, soltando seu pulso. 'Vá. Eu fico aqui.
Mas depois precisamos conversar.' Ela se levantou, limpando as mãos ensanguentadas no vestido, e correu para fora, deixando Lucas ferido no sofá. A tarde na fazenda era um caos. Isabela coordenava os funcionários, apagando os últimos focos de incêndio no paiol e avaliando os danos. O ataque de Marcos deixara marcas profundas: a casa-grande tinha marcas de bala, o paiol estava destruído, e um dos peões, Raimundo, estava ferido, mas estável.
Isabela sabia que precisava agir rápido. Marcos não desistiria. Ela chamou Tião, o líder dos ribeirinhos que viviam nas margens do rio, para uma reunião no terreiro. Tião era um homem de meia-idade, de pele queimada pelo sol, com um olhar desconfiado.
'Dona Isabela, a senhora quer nossa ajuda? Mas por que devemos confiar na senhora? Seu pai nos explorou por anos, nos tratou como escravos. E agora a senhora, casada com o chefão do tráfico, vem nos pedir apoio?' Isabela sentiu o peso das palavras.
Ela respirou fundo, olhando nos olhos de Tião. 'Eu sei que meu pai não foi justo com vocês. E eu sei que meu marido é um criminoso. Mas eu estou aqui para mudar isso.
Tenho provas de que Marcos matou meu pai, e tenho um mapa com as rotas de tráfico dele. Quero desmantelar tudo isso, devolver a terra para quem realmente pertence, e fazer justiça.' Ela puxou o mapa da bolsa e o estendeu para Tião. Ele olhou para o papel, seus olhos percorrendo as anotações. 'Isso é sério?', perguntou ele, a voz carregada de dúvida.
'É sério', respondeu Isabela, com firmeza. 'Mas preciso de vocês. Sozinha, não vou conseguir. Marcos tem homens, armas, e a polícia na mão.
Mas se nós nos unirmos, podemos resistir e derrubá-lo.' Tião franziu a testa, pensativo. 'E o que a senhora promete em troca?', perguntou ele. 'Prometo que, quando tudo isso acabar, as terras serão regularizadas para vocês. Vocês terão direito de plantar, pescar, viver em paz.
E prometo que a justiça será feita, não apenas para mim, mas para todos que sofreram nas mãos de Marcos.' Tião olhou para os outros ribeirinhos, que murmuravam entre si. Finalmente, ele assentiu. 'Está bem. Vamos ajudar.
Mas se a senhora nos trair, não terá onde se esconder.' Isabela sentiu um alívio imenso, mas sabia que era apenas o começo. Ela apertou a mão de Tião, selando o acordo. 'Podem contar comigo. Agora, vamos fortificar a fazenda.
Marcos vai voltar, e precisamos estar prontos.' Enquanto os ribeirinhos começavam a trabalhar, erguendo barricadas e cavando trincheiras, Isabela voltou para dentro de casa para ver Lucas. Ele estava deitado no sofá, o ombro enfaixado, mas com os olhos abertos. 'Você conseguiu?', perguntou ele, a voz fraca. Isabela sentou ao seu lado, pegando sua mão.
'Consegui. Tião e os ribeirinhos vão nos ajudar. Estamos fortificando a fazenda.' Lucas sorriu, apertando sua mão. 'Você é incrível, Isabela.
Eu sabia que podia confiar em você.' Isabela sentiu um calor no peito, uma sensação que não sentia há muito tempo. 'Obrigada por vir, Lucas. Você arriscou sua vida por mim.' Ele a olhou nos olhos, com intensidade. 'Eu faria de novo.
Você é a pessoa mais corajosa que eu já conheci.' Eles ficaram em silêncio por um momento, o som dos trabalhadores lá fora preenchendo o ambiente. Isabela sentiu uma conexão profunda com ele, uma confiança que crescia a cada segundo. 'Lucas, o que você ia me contar antes?', perguntou ela, curiosa. Ele hesitou, como se pesasse as palavras.
'Depois. Quando estivermos seguros. Mas eu prometo, é importante.' Isabela assentiu, respeitando o tempo dele. Ela se levantou, sentindo-se renovada.
'Preciso ver como estão os reparos. Você descansa.' Ela saiu, mas antes de fechar a porta, olhou para trás. Lucas a observava, um sorriso nos lábios. Naquele momento, ela soube que não estava sozinha.
Isabela supervisionava a colocação das últimas barricadas quando viu um vulto se aproximando pela estrada de terra. Era um homem em uma moto, levantando uma nuvem de poeira. Ela apertou os olhos, o coração acelerando. Quando ele chegou mais perto, ela reconheceu: era um dos capangas de Marcos.
Ele parou diante do portão, desligou o motor e tirou um envelope do bolso. 'Recado do patrão', gritou ele, arremessando o envelope por cima da cerca. Isabela pegou o envelope, as mãos trêmulas. Ela abriu, lendo o bilhete.
O sangue gelou em suas veias. Um mensageiro de Marcos chega com um ultimato: entregar a fazenda ou a avó sofrerá.






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