📖 O Dia em que Descobri que Era Herdeira
O Advogado que Sabia Demais
Isabela apertou o telefone contra o peito, o coração martelando tão alto que ela temia que Lucas pudesse ouvir. A voz dele, vinda do quarto, era um sussurro tenso, mas cada palavra cortava o ar como navalha. 'Ela não pode descobrir a verdade. Precisamos resolver isso antes que seja tarde demais.' Ela prendeu a respiração, os dedos gelados no plástico do aparelho.
A verdade. Que verdade? O testamento? A herança?
Ou algo ainda mais sombrio? Ela deslizou de volta para o banheiro, trancando a porta com cuidado, e sentou no chão frio, os joelhos encostados no peito. O bilhete da avó queimava em seu bolso, um lembrete de que ela tinha uma missão. Ela não podia ficar ali, esperando que Lucas decidisse o destino dela.
Ela precisava agir. Com mãos trêmulas, ela vestiu a roupa que havia separado, uma calça jeans e uma blusa escura, e abriu a janela do banheiro. O apartamento ficava no segundo andar, mas havia uma árvore próxima, com galhos fortes. Ela se lembrou de quando era criança e subia em árvores na casa da avó.
Era arriscado, mas era a única saída. Ela se pendurou no parapeito, sentindo o vento frio da madrugada, e pulou para o galho mais próximo, que cedeu com um estalo. Ela caiu no chão, rolando para amortecer o impacto, e ficou imóvel por um momento, ouvindo se alguém tinha notado. Silêncio.
Ela se levantou, limpou a terra das roupas, e correu para o ponto de ônibus, o bilhete do advogado apertado na mão. O café no centro de São Paulo era um oásis de tranquilidade em meio ao caos da manhã. Isabela chegou cedo, escolhendo uma mesa nos fundos, de onde podia ver a porta. Ela pediu um café, mas não tocou na xícara, os olhos fixos na entrada.
O Dr. Almeida chegou pontualmente, um homem de uns sessenta anos, com cabelos grisalhos e um terno bem cortado, que contrastava com o ambiente simples. Ele se apresentou com um aperto de mão firme e sentou-se à sua frente, pedindo um café também. 'Dona Isabela, obrigado por vir.
Sei que não foi fácil escapar do seu marido.' Ela o encarou, surpresa. 'O senhor sabe sobre Lucas?' O advogado sorriu, um sorriso triste. 'Sei mais do que gostaria. Ele me procurou há alguns dias, tentando invalidar o testamento de sua avó.
Alegou que você não era digna da herança, que tinha abandonado a família.' Isabela sentiu um aperto no peito. 'Isso é mentira. Eu não sabia nada sobre a herança. Minha avó...
ela nunca me contou.' Dr. Almeida assentiu, abrindo uma pasta que carregava. 'Eu sei. Dona Helena era uma mulher sábia.
Ela sabia que você precisava descobrir por conta própria, no momento certo. Mas o tempo está se esgotando. A família Souza está se preparando para contestar o testamento, e Lucas está do lado deles, tentando provar que você é uma fraudadora.' Ele colocou vários documentos sobre a mesa: certidões de nascimento, o testamento original, e uma carta manuscrita de Dona Helena. Isabela pegou a carta com mãos trêmulas, reconhecendo a caligrafia da avó.
'Minha querida Isabela, se você está lendo isto, é porque eu já parti. Sempre soube que você era especial, mas precisava proteger você. Lucas não é quem parece. Ele está atrás do dinheiro, não do seu amor.
Confie no Dr. Almeida e lute pelo que é seu por direito. Você é mais forte do que imagina.' Lágrimas escorreram pelo rosto de Isabela. Ela olhou para o advogado, a voz embargada.
'O que eu preciso fazer?' Dr. Almeida explicou que ela precisava ir a Brasília, à sede da Souza Agronegócios, e se apresentar como herdeira. Mas o caminho seria difícil. 'A família Souza vai tentar desacreditá-la.
E Lucas fará de tudo para impedi-la. Ele já contratou um detetive particular para segui-la.' Isabela engoliu o medo. 'Eu não tenho para onde ir. Ele confiscou meu celular, meu dinheiro, tudo.' O advogado entregou a ela um envelope.
'Aqui está uma cópia de todos os documentos, um celular novo e algum dinheiro. Você não está sozinha. Dona Helena deixou instruções para que eu a ajudasse.' Isabela guardou o envelope na bolsa, sentindo um novo peso de responsabilidade. 'Obrigada, Dr.
Almeida. Eu não sei como retribuir.' Ele sorriu. 'Apenas lute. É o que ela queria.' Isabela olhou para os documentos, ainda incrédula.
Ela era a herdeira de um império bilionário, mas se sentia mais vulnerável do que nunca. 'E o Rafael Souza? O que ele tem a ver com isso?' Dr. Almeida franziu a testa.
'Rafael é seu primo distante, mas não tem laço sanguíneo direto. Ele é o CEO da Souza Agronegócios e está ciente do testamento. Ele pode ser um aliado ou um inimigo, ainda não sei. Mas ele é a chave para você entrar na empresa.' Isabela lembrou-se das notícias que vira na TV, do jovem executivo que modernizara o grupo.
'Ele sabe quem eu sou?' O advogado hesitou. 'Ele sabe que existe uma herdeira, mas não sabe quem é. O testamento só foi aberto agora, com sua presença. Você precisa se encontrar com ele pessoalmente.' Isabela respirou fundo, sentindo o peso da decisão.
'Eu vou. Mas primeiro, preciso me livrar de Lucas. Ele não pode saber que estou indo a Brasília.' Dr. Almeida concordou.
'Tome cuidado. Ele é perigoso. E não confie em ninguém da família Souza até ter certeza de suas intenções.' Isabela guardou os documentos na bolsa, sentindo uma determinação renovada. 'Eu não tenho mais nada a perder.
Ele já me tirou tudo o que eu tinha. Agora, é a minha vez.' Ela se levantou, apertou a mão do advogado e saiu do café, o sol da manhã batendo em seu rosto. Ela se sentia mais forte, mas também mais sozinha. Ela não tinha amigos, não tinha família, apenas a memória da avó e a promessa de lutar.
Ela caminhou até a esquina, pensando nos próximos passos. Precisava de um lugar para ficar, de um plano. Mas, ao olhar para o outro lado da rua, seu coração parou. Lucas estava ali, parado, com um sorriso frio nos lábios.
Ele a viu. Isabela sentiu o sangue gelar nas veias. Ela apertou a bolsa contra o peito, sabendo que a fuga não tinha sido tão secreta quanto pensava. Isabela ficou paralisada por um instante, o olhar de Lucas cravado nela.
Ele não fez menção de atravessar a rua, apenas permaneceu imóvel, como uma cobra observando sua presa. Ela sabia que precisava agir rápido, mas seus pés pareciam enraizados no chão. O sorriso dele era um aviso, uma promessa de que a luta estava apenas começando. Ao sair do café, ela vê Lucas do outro lado da rua, observando-a com um sorriso frio.






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