📖 Depois do Divórcio, Ela Brilhou
A Demão de Tinta
No dia seguinte, Isabela e Rafael estavam pintando as paredes da confeitaria. O cheiro de tinta fresca se misturava ao de café passado na hora. Isabela notou que Rafael estava mais silencioso que o normal, ainda pensativo sobre a conversa do dia anterior. Ela decidiu quebrar o gelo.
'Então, me conta mais sobre seu trabalho como arquiteto. Você sempre quis construir casas?' Rafael sorriu, mas seus olhos continuavam distantes. 'Nem sempre. Eu comecei no escritório da minha família, projetos de luxo, mas algo faltava.' Ele passou o rolo na parede com um movimento lento.
'Foi quando eu conheci a realidade das comunidades. Percebi que a arquitetura podia ser muito mais do que estética.' Isabela parou de pintar, interessada. 'Como assim?' Rafael apoiou o rolo no balde e se virou para ela. 'Quando você projeta uma casa em Paraisópolis, você não está só criando paredes.
Está criando dignidade, segurança, um lar.' Ele olhou para o forno antigo no fundo da loja. 'É como esse forno. Não é só um objeto, é a memória da sua avó, a alma da sua confeitaria.' Isabela sentiu um aperto no peito. Ele entendia.
'E por que você saiu do escritório da família?' Rafael baixou os olhos. 'Porque eu não queria mais construir para os ricos. Eu queria construir para quem realmente precisa.' Eles continuaram pintando, e Isabela se sentiu à vontade para compartilhar sua história. 'Eu casei achando que era para sempre.
Marcos era o contador da família, parecia confiável. Mas ele estava me roubando, e eu nem percebi.' Ela contou sobre o extrato bancário, as mentiras, a traição com Camila. Rafael ouviu sem interromper, apenas acenando. Quando ela terminou, ele disse: 'Você é incrivelmente forte, Isabela.
Muitas pessoas teriam desmoronado.' Ela sorriu, sentindo um calor no peito. 'Eu não tinha escolha. Eu precisava reconstruir minha vida.' Eles estavam no meio da tarde quando um carro oficial parou em frente à loja. Um oficial de justiça desceu com uma pasta na mão.
Isabela sentiu o estômago embrulhar. 'Isabela Oliveira?' Rafael se adiantou. 'Ela é. O que está acontecendo?' O oficial entregou um documento.
'Uma ordem de inspeção na obra. Há uma denúncia de risco estrutural.' Isabela leu o papel, o coração acelerado. 'Isso é ridículo! A obra está seguindo todas as normas.' Rafael colocou a mão em seu ombro.
'Calma. Vamos resolver isso.' Ele se virou para o oficial. 'Pode inspecionar. Não temos nada a esconder.' O engenheiro da prefeitura chegou minutos depois e percorreu o local, verificando as paredes, o telhado, a fundação.
Isabela observava cada movimento, o suor escorrendo pelas têmporas. Depois de uma hora, o engenheiro tirou o capacete. 'Está tudo em ordem. Não há nenhum risco.
A denúncia era infundada.' O oficial anotou algo e foi embora. Isabela soltou o ar que nem sabia que estava segurando. 'Quem faria uma coisa dessas?' Rafael franziu a testa. 'Alguém que quer te atrasar.
Marcos, talvez?' Isabela mordeu o lábio. 'Ele não vai desistir, vai?' Rafael a olhou com determinação. 'Então a gente não vai desistir também.' Depois da inspeção, Isabela e Rafael se sentaram no chão, cansados, as costas apoiadas na parede recém-pintada. O sol já se punha, filtrando uma luz dourada pelas janelas.
Rafael pegou dois copos de café frio e ofereceu um a ela. 'À nossa saúde', brincou, tocando o copo no dela. Isabela riu, mas o riso logo se transformou em um suspiro. 'Obrigada, Rafael.
Por estar aqui. Por não ter me deixado surtar.' Ele a olhou com admiração. 'Você não precisa de mim para ser forte. Mas é bom ter alguém ao lado, não é?' Ela concordou, sentindo um conforto que não sentia há muito tempo.
Ficaram em silêncio por alguns minutos, observando as paredes ganharem cor. Isabela sentiu que estava construindo algo seu, tijolo por tijolo, com um amigo ao lado. 'Sabe, eu nunca pensei que pudesse confiar em alguém de novo', ela disse, baixinho. Rafael virou o rosto para ela.
'Confiança é uma construção. Leva tempo. Mas você está no caminho certo.' Isabela sorriu, sentindo-se mais leve. 'Eu acho que sim.' Eles ficaram ali, no chão, até a luz desaparecer.
Isabela se sentiu grata. Pela primeira vez, ela não se sentia sozinha. Quando Isabela se levantou para guardar os pincéis, Rafael a chamou. 'Isabela, espere.' Ela se virou.
Ele hesitou, como se estivesse decidindo algo. 'No sábado, eu vou visitar meu projeto em Paraisópolis. Você quer ir comigo? Para ver o trabalho de perto?' Isabela sentiu uma pontada de curiosidade.
Ela queria entender melhor o mundo dele, e a ideia de passar mais tempo com ele era agradável. 'Eu adoraria', respondeu, sem pensar duas vezes. Rafael convida Isabela para visitar seu projeto em Paraisópolis no fim de semana, para que ela veja seu trabalho. Isabela aceita, curiosa sobre seu trabalho e querendo saber mais sobre ele.






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